
Perfil
As minhas mãos estão a suar. O coração bate depressa. Tenho medo.
Estou sentado em frente a um cliente numa torre de vidro algures no Brasil, a fazer exatamente aquilo para que fui criado — e não consigo deixar de me fazer uma pergunta que não sei como parar: Será que isto é mesmo suficiente?
Sou o filho mais novo de uma família de imigrantes portugueses no Brasil. O meu pai é fotógrafo. Tem documentado a nossa família desde antes de eu nascer. «Este é o teu primeiro beijo», disse-me uma vez, mostrando-me uma fotografia. Quando tinha dez anos, decidiu que eu devia entender o valor do trabalho — e assim comecei a filmar casamentos e eventos ao seu lado. Não parei de trabalhar desde então.
Cresci com valores sólidos: trabalha muito, dá o teu melhor, estuda, faz a tua família orgulhosa. E foi o que fiz. Tornei-me um bom aluno, depois um excelente consultor de negócios numa das melhores empresas do Brasil. Crescimento rápido, pessoas brilhantes, salário a subir.
Era muito bom. Mas não chegava.
Sempre sonhei ser artista. Pintar como Frida Kahlo. Escrever como Chimamanda Ngozi Adichie. Mas acreditava que era uma questão de talento — e o talento para a arte tinha sido dado a outras pessoas, não a mim.
Depois comecei a viajar pelo trabalho, cidade após cidade, e algo mudou.
Ser grande nunca foi uma questão de talento. Era foco. Era trabalho árduo. Era uma escolha.
Toda a pessoa — incluindo eu — nasce artista.
Percebi que nunca ia estar pronto para dar o salto. E para enfrentar de verdade o medo de cair, tinha de saltar na mesma.
Fiz o Caminho de Santiago. Pus um pé à frente do outro até o ruído do escritório ficar para trás. Cheguei a Portugal com uma pergunta diferente — não «em que sou bom?» mas «o que quero criar?»
Fundei a StartArt Residency numa casa junto a um rio no norte de Portugal. Aqui ensino fotografia. Organizo ateliers de arte, faço visitas à propriedade, animo noites de jogos que se prolongam para além da meia-noite. Todos os anos vêm quarenta a cinquenta pessoas — escritores, pintores, fotógrafos, pessoas que carregam um projeto inacabado há anos — e numa semana, frequentemente criam aquilo que teriam demorado meses a fazer sozinhos em casa.
«Mais do que perfis, recebemos pessoas.» É o que digo quando alguém chega. Porque era o que eu precisava de ouvir.
O meu pai tem fotografado a nossa família desde antes de eu nascer.
Ainda estou na fotografia.
A StartArt Residency está aberta a fotógrafos, artistas e criativos de todo o tipo. Estadias a partir de 7 dias em Vila Verde, a 40 minutos do Porto, rodeada pelas florestas e rios do norte de Portugal.
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