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Perfil
Há uma faixa de amarelo que desce agora em vertical pelo centro da parede.
Pela testa, entre os olhos, sobre os lábios, até à garganta. Como uma coluna de luz aberta através de uma cara.
Fui eu que a pus.
Cheguei à StartArt com uma t-shirt com o raio de David Bowie. Trabalho descalço. O meu estúdio é uma mesa dobrável com um saco de lixo por cima, e sobre ela, um pequeno exército de Tupperware cheio de tinta — vermelho, rosa, turquesa, o coral alegre que se torna numa maçã do rosto.
Sou de Madrid. Pinto murais há vinte anos. Chamo-me a mim próprio ilustrador, pintor pequeno. As paredes são o que me importa.
Gosto de murais porque te deixam fazer parte de uma comunidade. Ofereces o teu ponto de vista a um lugar. Partilhas o teu mundo com as pessoas que por ele passam — abertamente, na rua, à luz do dia.
«O quadro já não te pertence. Pertence a quem o olha.»
Este é sobre energia.
Não a que se mede em watts. A energia que toda a gente tem dentro de si — que podes criar para ti mesmo, que podes encontrar dentro de ti. Pode ser luz. Pode ser amor. Cada pessoa a carrega. A maioria ainda não a descobriu.
Tinha carregado a cara durante muito tempo. Três metros dela — maçãs do rosto cor-de-rosa e roxas, azul no queixo, dois olhos tranquilos a olhar para fora. E aquela linha amarela a descer em vertical pelo centro. Como uma espinha dorsal feita de amanhecer. A energia tornada visível.
O que não tinha era a parede.
A primeira coisa que fiz foi cobrir o preto com branco. Devagar, com paciência, quase cerimonialmente. A parede tem de estar vazia antes de poder ser qualquer coisa.
Durante dias, era só cor a aparecer. Um esboço verde de um olho. Rosa intenso no topo. A faixa vertical de amarelo que ainda não significava nada.
Não expliquei nada. Continuei a pintar.
Numa tarde já tarde, recuei.
A cara tinha chegado.
Mudei de t-shirt. Voltei descalço, fiquei em frente à minha própria obra e inclinei a cabeça para cima para a ver.
Se tens carregado algo dentro de ti que mede três metros — e o tens tornado mais pequeno para caber no teu apartamento, na tua cidade, na tua vida quotidiana — há aqui uma parede. Há o tipo certo de luz. Há a espécie de semana em que aquilo que tens carregado finalmente pode ter o tamanho que sempre teve.
Vim com a linha na cabeça. Deixei-a na parede.
A StartArt Residency está aberta a pintores, muralistas e criativos de todo o tipo. Estadias a partir de 7 dias em Vila Verde, a 40 minutos do Porto, rodeada pelas florestas e rios do norte de Portugal.
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