Tudo começou com fruta na mesa da cozinha.
A Dona Custódia é vizinha da StartArt. Mantém uma relação próxima com a terra e, de vez em quando, aparece com o que ela lhe deu — dióspiros, maracujás, o que estiver maduro nessa semana. Os residentes vêm e vão. A fruta continua a chegar.
A Victoria Akino reparou.
A Victoria é muralista, de Hidalgo, no México. Esteve na casa pela primeira vez em 2025 e deixou dois murais. Este ano voltou — e, desta vez, queria que a parede dissesse alguma coisa sobre o próprio lugar.
“La inspiración fue justamente la agricultura”, conta. A inspiração foi justamente a agricultura.O resultado é o Mural das Colheitas. Espigas de milho. Uma mão que segura um cacho de uvas. Folhas de videira com padrões de azulejo. E um rosto de mulher, de olhos fechados, pintado com as cores vivas que a Victoria traz do México.
É uma homenagem às mulheres que trabalham os campos de Vila Verde há gerações — quase sempre sem que ninguém as pinte.
“Es muy importante que también se vea esa otra parte.”É muito importante que também se veja essa outra parte.
A aldeia também reparou. O Vilaverdense, o jornal local de Vila Verde, veio ver a parede e contou a sua história: uma artista mexicana, uma casa junto ao rio, uma homenagem às mulheres da terra.
Para o Alexandre, que gere a casa, o mural marca uma mudança. Pela StartArt já passaram artistas de mais de 60 países, cada um com a sua história. Agora a casa quer contar as histórias do lugar onde está. “É a hora de também contar as histórias portuguesas”, disse ao jornal.
O mural junta-se a mais de trinta outros espalhados pela antiga Quinta do Vau, junto ao Rio Homem. Cada um foi deixado por alguém que veio por uma semana ou um mês.
Este começou com uma vizinha.
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